Distraídos Venceremos foi a idéia que paulo Leminski me passou em sua obra que li e confesso, pouco entendi, ou se o fiz, tenho certeza que de minha maneira. Quanto a isso tudo bem, somos sempre um livro aberto. Nesse blog expresso idéias minhas em palavras soltas e distraídas. “Vim pelo caminho difícil, a linha que nunca termina, a linha bate na pedra, a palavra quebra uma esquina, mínima linha vazia; a linha, uma vida inteira, palavra, palavra minha.” Paulo Leminski

10.9.06

Aviso aos Náufragos

Esta página, por exemplo, não nasceu para ser lida. Nasceu para ser pálida, um mero plágio da Ilíada, alguma coisa que cala, folha que volta pro galho muito depois de caída. Nasceu para ser praia, quem sabe Andrômeda, Antártida, Himalaia, sílaba sentida, nasceu para ser última a que não nasceu ainda. Palavras trazidas de longe pelas águas do Nilo, um dia, esta página, papiro, vai ter que ser traduzida, para o símbolo, para o sânscrito, para todos os dialetos da Índia, vai ter que dizer bom-dia ao que só se diz ao pé do ouvido, vai ter que ser a brusca pedra onde alguém deixou cair o vidro. Não é assim que é a vida?

Paulo Leminski, Distraídos Venceremos

23.8.06

Ainda somos diferentes

Conversa avulsa

- A diferença é que o boi tem sentimentos. É por isso que como frango, que é burro como uma porta, e como porco.

- Mas esse último é sujo.

- Mas não deve ter sentimentos como o boi.

14.7.06

Crônica do prazer


A gente fica branco, as pernas bambeiam, o coração dispara. Dá um apagão na mente, você não pensa e nem se lembra de mais nada. Ela mexe pra lá, pra cá. Você fica parado, depois se enrosca no lençol. Ela fica em cima e você em baixo. Você fica em cima e ela em baixo. Vai para um lado, pro outro, sente o gosto salgado do suor. Você não quer sair dali nunca mais. O mundo lá fora pode estar acabando. Na verdade é o mundo aqui dentro dessas paredes que parece que vai acabar. Mas que ele acabe assim, desse jeito, nessa posição. Você só falta explodir.

É tanta perna que meus olhos só enxergam até o joelho. Eu subo mais um pouco, ela desce mais um pouco, desce até demais. Faz barulho, faz cara feia. A gente se joga de tal maneira que meus braços vão parar num cato da sala e quando vejo suas pernas já estão na janela. Minha cabeça já ultrapassou os limites do universo, os seus quadris estão em um forró lá no nordeste, e eles me chamam para dançar. E como dançam! E com é gostoso esse forró. Pode ser de qualquer jeito, em cima do sofá, no chão, na cama, perto da tv, dentro do criado mudo. Meu Deus, eu nunca pensei que se pudesse fazer amor pendurado no lustre. Sim é possível.

Suspiros ficam soltos no ar. Palavrões? A gente não precisa disso para amar. Nossos corpos são uns só, ligados por uma energia mágica que nem a física, biologia ou química conseguiriam explicar. Seus olhos pregados nos meus e o seu hálito já é o meu hálito. De repente tudo se embola. Minha nuca fica próxima do calcanhar. Nossos braços se cruzam como espadas em uma guerra. Sua barriga está ao mesmo tempo do meu lado esquerdo e direito. Seus cabelos se espalham ao redor e preenchem todo o vazio de nossos corpos. Eu estou dentro dela e ela em mim E como uma mágica dos deuses o nó se desfaz.

As paredes tremem, o vizinho já deve estar puto. Não há droga no mundo que supere o prazer de um amor feito, quer dizer, bem feito. É tanta energia concentrada em um só objetivo que chega uma hora que não se sabe mais onde colocar as mãos, enfiar as pernas, roçar a cabeça. Não se sabe mais para onde olhar, que parte beijar. Isso é amor. Acabam-se as gentilezas, o romantismo, o cavalheirismo. O importante mesmo é estar dentro, literalmente. A gente fica ali. E a gente fica assim, a noite toda, sempre querendo mais, sem limites. Aliás, sexo é uma coisa que não combina com limites. Sexo é sem limites.

No silêncio da noite, exaustos dormimos. É numa hora dessas que me pergunto, pra que dormir? E quando a noite acaba, vem o dia. Que dia! Que dia!

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Só para manter o tema, abaixo vai um texto do Fernando Veríssimo. Saboreiem e se divirtam!!!

Crônica do sexo

- Pai...
- Hummm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê?
- O feminino de sexo.
- Não tem.
- Sexo não tem feminino?
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e Feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra "sexo" é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino.
- Não devia ser "a sexa"?
- Não.
- Por que não?
- Porque não! Desculpe. Porque não. "Sexo" é sempre masculino.
- O sexo da mulher é masculino?
- É. Não! O sexo da mulher é feminino.
- E como é o feminino?
- Sexo mesmo. Igual ao do homem.
- O sexo da mulher é igual ao do homem?
- É. Quer dizer... Olha aqui. Tem sexo masculino e sexo feminino, certo?
- Certo.
- São duas coisas diferentes.
- Então como é o feminino de sexo?
- É igual ao masculino.
- Mas não são diferentes?
- Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
- Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.
- A palavra é masculina.
- Não. "A palavra" é feminino. Se fosse masculina seria "o palavro"
- Chega! Vai brincar, vai.

O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:

- Temos que ficar de olho nesse guri...
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática...

6.6.06

2 anos distraídos



Dia doze de junho, dia dos namorados. Dia doze de junho, dois anos de Distraídos Venceremos. Ao longo desses 24 meses de batalha com o texto, o Distraídos foi ganhado cara, forma, sentimento. Começou meio bobo, no sentido "jovem que quer mudar o mundo". Hoje ele já tem seu público fiel, sua delimitação poética e sua forma textual. É aqui no Distraídos que coloco tudo que passo no meu dia-a-dia, tudo que acontece no meu pequeno mundo e que eu acho ser o que acontece no mundo da maioria das pessoas. O Distraídos, em dois anos, me fez pensar e não só refletiu meus pensamentos.

Aqui falei de amor, de poesia, de matemática, de futebol. Falei também de coisas estranhas, de coisas cinzas. Falei de saudade, de morte, de samba. A tristeza, a alegria, a bravura e a emoção estiveram presentes nas entrelinhas dessa obra. Foi no Distraídos que falei coisas as quais não deveria. Foi aqui que escrevi muito e muitos textos que não tive a coragem de publicar. Foi esse espacinho, localizado no meio da infinidade digital, que passei minhas noites sozinhas, minhas noites distraídas.

Hoje faço um balanço do que o Distraídos significa para mim. Nunca tive a intenção de fazer publicidade dele. As pessoas foram conhecendo aos poucos. Todas as semanas me perguntavam quando vou atualizar, me criticavam ou me elogiavam. Se antes pensava que eu fazia o Distraídos Vencermos, hoje descobrir que é ele que me faz. É como uma rua de mão dupla: eu escrevo e ele me mostra. Daí eu me releio e me repenso e me refaço.

Nesse espaço falei de Drummond, de Bilac, de Garcia Márquez. Falei de grandes gênios da literatura. Mas falei também dos famosos desconhecidos. Escrevi, citei os amigos que também escrevem. Refleti sobre as pessoas que transformam minha vida num momento em que acontece a interação com o outro. Aquelas que mudam nosso comportamento. Fui influenciado pelos poetas que vendem seus livros a preço de banana nos botecos de Belo Horizonte. Muitas vezes escrevi inspirados nas mulheres de minha vida. E quando pensava que tudo isso não passava de uma grande efemeridade, descobri, distraído, a importância de tudo isso para mim. "O que você faz, faz o mundo", não é essa a frase? Fui influenciado por aqueles que me ensinaram o que é o amor. Foi no Distraídos que aprendi o que é o amor.

O Distraídos esteve presente em minhas andanças pelo mundo (não foram muitas). Escrevi aqui a sensibilidade dos povos que conheci. Coloquei fotos, escrevi textos, reescrevi outros textos, muitos eu apaguei, outros nem publiquei. Esbocei poesia, falei de Cartola, ó grande Cartola. Foi acompanhado das músicas do Trovador do Samba que passei horas escrevendo, sentado aqui nessa cadeira.

Descobrir aqui a importância do pensar. Pensei, pensei muito e quando acreditei que podia ultrapassar todas as fronteiras e limites impostos nesse mundo onde as pessoas se matam por um litro de petróleo, caí na mais triste (ou talvez nem tanto) realidade: pense o quanto quiser, você não vai conseguir sair da caixa. Talvez porque nem mesmo você quer sair dela. Quantos jovens hoje criticam o capitalismo, mas continuam alimentando o sonho do consumo, enchendo a cara de maconha e cocaína, favorecendo as grandes corporações internacionais de drogas que são, sem exceção, lideradas por nossos governantes? Quantos são aqueles beatos de igreja que pregam a humildade e o respeito mútuo, mas cospem no chão quando vêem um preto e pobre passando? Ou quantos são aqueles que possuem as melhores das intenções, mas não conseguem propor nada de produtivo para sociedade, e quando o faz é tachado de louco? Pelo jeito, a única forma de ainda vivermos é fazer com que, distraída, essa caixa cresça e cresça e cresça.

Pelo menos aos poucos a gente consegue chegar lá. Parabéns Distraídos, 2 anos!

23.4.06

O teatro de agora, o Cartola de outrora



Fizeram ontem um samba. Fizeram ontem o samba da saudade. Dedicaram esse samba para Estação Primeira. Esse samba foi feito por Cartola. Ele falava que o amor não envelhece, que o bom é morar num barracão. Cantava que o mundo é um moinho, que sorri não por alegria e sim por consolação. O samba tinha sete faces; era do estilo guache¹, igual a esse texto que está aqui dentro, mas não consegue sair.

Mas para entender esse samba de amor e de saudade, fizeram da vida um teatro. Fizeram da vida uma grande interpretação. Imaginaram atores, imaginaram cenários - juro por Deus, nessa peça tinha até diretor. Ensaiaram e depois apresentaram a peça nos grandes espaços da capital. A platéia aplaudiu, o povo acreditou. A crítica, mesmo sem entender o motivo daquele enorme espetáculo, elogiou.

Todos sairam felizes de lá. Não deixavam dúvidas que o objetivo foi alcançado. Mas os atores não estavam satisfeitos. Eles viram que ainda faltava algo que era muito difícil de encontrar. Faltava, sinceramente, dizer a verdade. Foi por isso que, mesmo depois de muito tempo, ninguém conseguia entender o real sentido daquele samba; aquele samba da inquietude do amor. Foi então que descobriram que não precisavam mais mentir, não queriam mais fingir. Não há nenhuma interpretação capaz de entender a pureza do samba, o samba maior que o da saudade e o do amor...o samba da vida.

De corações abertos, os atores contaram a verdade para o todo o povo. Foram odiados para o resto de suas vidas. Mas agora conseguem durmir de consciência limpa, ao lado da vitrola, que toca baixinho, as boas letras de Cartola.

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¹ Poema de Sete Faces de Calos Drummond de Andrade. A palavra guache leva a uma interpretação de "errado", "torto". Pode encarará-la até mesmo, para os mais politizados, como de "esquerda".

14.4.06

Não chora, a hora é de deixar



Venho me despedir talvez tarde de mais de alguém que já se foi. Tenho cá comigo uma justificativa fiel: existem sempre aqueles sentimentos que te impedem de escrever em determinados momentos. Só agora me sinto capaz de escrever minha despedida. Falo diretamente com você nesse texto; falo tudo aquilo que outrora já havia pensado, mas que minha fraqueza não conseguiu traduzir em palavras.

Tive certeza quando te conheci que encontrei um coração justo, nobre - e não falo isso por simples nostalgia. Encontrei logo de cara uma pessoa diferente, que sorria quando não se devia sorrir, que chorava somente nos momentos em que as dores já não eram mais humanas. Me esbarrei com uma pessoa com sofrimentos, muito mais calcados e onorosos do que os simples bossais de nossa vida, mas que buscava coragem não sei de onde e continuava a sorrir. Foi assim que te conheci; foi assim que pelo menos aprendi a te conhecer. Foi você quem me ensinou que a vida é curta demais para ser levada a sério. Foi você quem me ensinou que nenhuma perda pode ser grande demais para desistirmos da vida (e ainda vinham me falar que você desistiu dela. Eles não sabem de nada). Afinal de contas, existe coisa melhor do que essa vida daqui? Talvez exista sim...a sua vida nova daí.

Não tive tempo de me despedir de você. Tempo que na verdade ninguém teve. Quando voltei pra cá já era tarde demais. Só não me esqueço o último dia quando você me desejou boa viagem e disse que talvez um dia me encontrava pelo mundo. Tenho certeza que um dia isso vai acontecer. Lembro que você sempre me dava apoio para minhas atitudes e numa dessas de amiga imprimiu e mostrou para todo mundo uns texto que eu tinha publicado nesse mesmo velho blog. Acho que foi nesse momento que nos conhecemos de verdade.

Nunca posso me esquecer das tardes vazias depois da faculdade, sem dinheiro, bebendo Nova Schin e fumando o restante do maço de Hilton. Ou então dos velhos papos dos antigos carnavais de Corinto; e bota antigo nisso. Lá no fundo da sala, as vezes dormindo, as vezes rindo, mas como o mesmo sarcamos de sempre. Aquele gostoso sarcamos que faziam minhas manhãs muito mais felizes que agora. Eu chegava sempre 40 minutos atrasado e você já estava lá na escada reclamando da aula. A mesma cena todos os dias. Um outro dia desses uma professora achou que eu estava no segundo período, eu disse que não e ela respondeu "é porque você sempre está sentado aí, então achei que era dessa sala até hoje"... mas hoje falta a companhia no lado esquerdo da escada.

Deixo aqui somente essa pequena lembraça para que não vá pensado que te esqueci. Sei que te devo muito mais do que escrevi nessas poucas linhas. Te devo muito pelas coisas que aprendi ao seu lado. Te devo pelo carinho que sempre demostrou por mim e que raras as vezes percebi. Não tenho como pagar - e acho que nem você quer isso - o pouco tempo que vivi do seu lado. Mas te deixo hoje as chaves do meu coração para que se tranque e não saia dele nunca mais. Se naquela dia não estava no Brasil para te dizer "vai com Deus", te falo agora. Vai com Deus amiga, vai com Deus...

23.3.06

Sozinho



Hoje é um dia sozinho. Daqueles que se acorda sozinho, toma café sozinho e lê jornal sozinho. É um dia de assistir aula sozinho, pegar o ônibius sozinho e não falar com ninguém. É o dia de sair da faculdade mais cedo, chegar em casa sozinho, tomar uma Brahma sozinho e se embreagar sozinho. É daqueles dias de ouvir Jorge Ben sozinho, ouvir Cartola sozinho, só você e mais nada; só você e o velho disco do Chico. Hoje é o dia de ficar em casa sozinho, entrar na internet sozinho, é o dia de falar sozinho, cantar sozinho, se divertir sozinho, dançar sozinho. Hoje é o dia de sair na rua, olhar o sol que brilha e cumprimentar o primeiro senhor que ver pelo caminho (mesmo que ele não responda). É aquele dia que você recebe um cartãozinho contra suas opiniões políticas, mas finge que concorda para fazer os outros felizes. É o dia que nada estraga a felicidade.

É o dia de comemorar, de ser feliz. Mais um dia para escrever sozinho, se emocionar sozinho e chorar aquela tristeza gostosa sozinho. É o dia de não atender telefonemas, de não ligar para pessoa que ama, de não responder e-mails. Vale a pena ficar sozinho às vezes, eu garanto.

É o dia de rir do vizinho que reclama de você o tempo todo. Mas não rir de deboxe. Rir porque você sabe que ele é um ser huamano como os outros e que faz de tudo para ser feliz, para ganhar a vida. É o dia de rir da probreza, das mazelas do país, de achar graça em tudo de triste desse mundo. E tudo isso se faz sozinho.

É o dia de chegar em casa e dizer "Meus Deus, como eu amo minha rotina". É o dia de ironizar os textos passados. Entrar no banho sozinho (como quase sempre), ver tevê, o programa mais tosco, sozinho. É o dia de refletir sobre você mesmo. Lembrar dos amores passados, mal resolvidos, das experiências vividas. É lembrar de tudo aquilo que você sempre quis falar para todo mundo que conhece, mas nunca teve coragem. Lembrar também das tristesas de outras vidas, e por incrível que pareça você ri disso. É o dia que você compra coisas inesperadas que achava que nunca ia comprar, como pro exemplo uma panela de pressão e um "tê" de tomada.

É mais um dia que se dorme sozinho, sem querer que mesmo a mulher mais linda do mundo esteja ao seu lado. Você reza sozinho, deita sozinho e lembra de tudo que aconteceu nesse dia sozinho. Por que uma coisa eu digo: ficar sozinho é as vezes o melhor remédio, porque não há nada mais gostoso do que a nostalgia da solidão.